A cardiomiopatia hipertrófica é um grupo de perturbações caracterizado por uma hipertrofia ventricular (um espessamento das paredes do ventrículo esquerdo) e sua causa é hereditária quando de transmissão familiar. A doença é progressiva sendo não aparente na maioria dos gatos afetados até o terceiro mês de vida, porém torna-se evidente do sexto mês aos três anos de idade, em média. Ela tem grande prevalência na raça Maine Coon mas há gatos livres da doença.
O diagnóstico pode ser feito a partir do exame de DNA ou de exames físicos. No caso dos exames físicos, por exemplo, os ruídos do coração que se ouvem com um fonendoscópio geralmente são característicos. O diagnóstico costuma confirmar-se com um ecocardiograma, um eletrocardiograma (ECG) ou uma radiografia do tórax. O diagnóstico da hipertrofia patológica requer que a espessura do septo ou da parede livre ventricular esquerda medida no final da diástole seja de 6mm ou mais, entretanto o grau de hipertrofia não está necessariamente correlacionado com a gravidade dos sinais clínicos. Como a doença é progressiva, geralmente sugere-se que estes exames sejam feitos apenas a partir dos dois anos de idade. Já o exame de DNA, pode ser feito antes dos sintomas iniciais surgirem ou do gato passar a mutação a descendentes, ou seja, a partir do desmame. Havendo a presença da mutação na amostra testada o gato será diagnosticado portador da mutação, mas não necessariamente cardiopata.
A HCM familiar é transmitida por pelo menos um dos pais do filhote. Como a doença é genética e tem herança dominante se o animal possuir pelo menos um alelo mutado, ou seja, for heterozigoto para a mutação, já possui a predisposição para a doença e havendo tempo hábil de vida fatalmente desenvolverá sintomas.
A patologia é causada por uma mutação num dos genes da cadeia da miosina. A mutação troca uma guanina por uma citosina. Esta mudança faz com que a conformação do sarcômero da fibra muscular seja defeituosa, causando, com o tempo, sobrecarga cardíaca. O desarranjo das fibras no tecido cardíaco pode ser visto em microscópio comum. Além de a doença ser de herança dominante, como já dito, possui penetrância completa. Quando uma característica possui 100% de penetrância, significa que havendo a presença do alelo (no caso, da mutação), haverá desenvolvimento da patologia. A HCM também possui expressividade variável, ou seja, pode expressar-se em diferentes tempos em diferentes gatos. Os fatores que causam esta variação ainda são desconhecidos e é por esta razão que os artigos indicam que os grupos de gatos estudados desenvolvem a doença "em média" aos três anos de idade. Há filhotes que a partir dos seis meses de vida já apresentam sintomas e há casos de animais com mais de sete anos sem sintomatologia. Infelizmente, não há relação que mostre que filhos de gatos que desenvolveram tardiamente a doença também o fazem.
Em se tratando de raças diferentes, já foi constatado que a mutação dos Maine Coons é ausente, mesmo em gatos cardiopatas. Em Noruegueses da Floresta e Ragdolls a mutação causadora da HCM é diferente da dos Maine Coons e é ainda objeto de pesquisas científicas. Assim, para estas raças, o exame disponível no momento não é resolutivo.
Como a doença tem penetrância completa, seu animal desenvolverá HCM, a menos que faleça por outro motivo antes. A sintomatologia varia de animal para animal e o acompanhamento veterinário é indispensável. A partir de um diagnóstico positivo para a mutação os exames de imagem cardíaca devem ser periódicos a fim de diagnosticar precocemente a progressão clínica da doença e tentar tratá-la o quanto antes. Se seu animal de estimação não for castrado e apresentar HCM, esta é a hora de fazê-lo. Lembre-se que a doença é de transmissão genética e que probabilisticamente os gatos homozigotos a transmitem a 100% da prole, enquanto os heterozigotos a 50% dos filhotes quando cruzados com gatos negativos.
Parece que os sintomas surgem mais cedo em gatos homozigotos, mas não se pode dizer que são mais severos do que em gatos heterozigotos, muito menos que isso seja uma regra. Há gatos heterozigotos que desenvolvem muito cedo os sintomas. Assim, não se podem fazer previsões de prognóstico a partir do exame de DNA. É preciso acompanhamento clínico.
Os sintomas clínicos são variáveis em severidade e surgem progresivamente e nem sempre todos os sintomas estarão presentes em cada animal. Estes compreendem desfalecimento, dor torácica, palpitações produzidas pelos batimentos cardíacos irregulares e insuficiência cardíaca com dispnéia. Os batimentos cardíacos irregulares podem provocar a morte súbita. Os gatos sintomáticos freqüentemente apresentam sinais de insuficiência cardíaca ou sinais de doença tromboembólica, precedidos, geralmente, de sinais inespecíficos como anorexia, letargia, depressão, intolerância ao exercício, síncope e, algumas vezes, vômito. Sinais respiratórios, como tosse e dificuldade respiratória, que podem ser acentuados se os animais afetados forem submetidos a alguma forma de estresse. Tosse em gatos não é tão comum como em cães, sendo que comumente a tosse em gatos é interpretada erroneamente como vômito. Os sinais de embolia aórtica incluem disfunções vascular, neurológica e da musculatura esquelética. As alterações vasculares incluem perda do pulso femoral e coccígeo (através de exame retal) e membros posteriores pálidos e frios. A sintomatologia neurológica é caracterizada por paralisia dos membros pélvicos. As disfunções musculoesqueléticas são caracterizadas por claudicação intermitente, dor e cianose dos membros.
Ainda não está clara uma estratégia ótima para o tratamento de casos de animais assintomáticos ou moderadamente sintomáticos. Não existe um consenso entre os cardiologistas sobre a terapêutica a ser adotada nos casos dos gatos assintomáticos ou mesmo sobre o manejo dos quadros crônicos. A morte costuma surgir de forma súbita; nos gatos sintomáticos que apresentam edema pulmonar agudo, este é rapidamente progressivo e fatal. O falecimento devido a uma insuficiência cardíaca crônica é menos freqüente. É recomendável o manejo genético rigoroso dos animais afetados.
O tratamento é orientado para reduzir a resistência do coração ao seu enchimento entre os batimentos. O tratamento principal é a administração, em conjunto ou em separado de betabloqueadores e de antagonistas dos canais do cálcio. Na terapia crônica deve-se buscar a manutenção da compensação cardíaca, prevenir o tromboembolismo arterial, procurar diminuir ou reverter a disfunção miocárdica, promover uma melhora na qualidade de vida e prolongar a sobrevida do animal. Não há dados indicando qual é a droga mais efetiva se a terapia combinada é mais vantajosa que a monoterapia, ou ainda, se tratar é significante melhor que não tratar.
Antes de qualquer intervenção odontológica ou cirúrgica, é necessário que antibióticos sejam administrados,
para reduzir o risco de infecção do revestimento interno do coração (endocardite infecciosa).
Este texto baseia-se nos dados para a primeria mutação isolada (MYBPC3), que comprovadamente causa HCM em Maine Coons.